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A Internet das Coisas no setor elétrico

Ronaldo Vieira, gerente de desenho de negócios em IoT da F5 Networks Brasil e membro do Comitê de Segurança da ABINC.

Com a ideia de ter o máximo de componentes que nos cercam e a partir disso, transmitir dados e informações, o conceito de Internet das Coisas – do inglês Internet of Things – também vem se mostrando presente no setor elétrico. Aparelhos conectados à rede poderão controlar objetos, as coisas, trazendo uma série de possibilidades. O setor é considerado um dos que a implementação do conceito pode ter a melhor intensidade de expansão, aliando inovação com modernidade.

É na distribuição que a internet das coisas vem aparecendo para o consumidor com mais destaque. A adoção de soluções de smart grid faz com que a distribuidora tenha informações sobre o comportamento dos clientes, além de melhorias em serviços. Automação de subestações, sensoriamento e a instalação de medidores inteligentes auxiliam no monitoramento da rede e maximizam os benefícios da IoT na operação. De acordo com Renato Povia, Gerente de Inovação da CPFL Energia, a conectividade do centro de operação com os ativos da rede são a materialização do conceito no Grupo CPFL. Ele lembra ainda que o monitoramento de sistemas de microgeração feitos pela subsidiária Envo, é um outro exemplo. “Sabemos exatamente quanto cada cliente está consumindo ou gerando na sua unidade, o que permite garantir a qualidade da energia e antecipar demandas de manutenção ou eficiência energética”, explica.

Com a digitalização das redes e da operação, os benefícios da IoT para consumidores aparecem na resolução de uma simples ocorrência, quando religadores podem se comunicar entre si e isolar o trecho em que está o problema e restabelecer o fornecimento a um número maior de clientes em menor tempo possível. Para Carlos Ademar Purim, gerente da área de eletrônica do Lactec, no Paraná, as redes aéreas de distribuição são outro exemplo de beneficiária da Internet das Coisas, uma vez que elas possuem pior desempenho que as subterrâneas, que são mais caras, porém mais eficientes. “Os sistemas de IoT vão permitir melhor qualidade de energia com redução de custos”, avisa pesquisador. O centro de pesquisas paranaense recentemente desenvolveu um sensor inteligente para áreas da média tensão, em que uma ocorrência pode ser resolvida em 60% menos tempo, pela rapidez na tomada de decisão.

A novidade de 2018 na distribuição também deve de certa forma alavancar a internet das coisas no setor. A tarifa branca, que ainda está restrita a uma faixa de usuários por nível de consumo, traz a chance de uma conta de luz mais barata para quem consumir energia fora da hora da ponta. A sua adoção faz com que a distribuidora tenha que oferecer uma solução de smart grid para avaliar o seu cliente. “Como vai cobrar, ela vai mandar um técnico na minha casa? A tarifa branca exige que seja disponibilizado um sistema de medição inteligente”, explica Ronaldo Vieira, gerente de desenho de negócios em IoT da F5 Networks Brasil. Ele aponta a eficiência como um dos maiores ganhos que a IoT vai trazer ao setor elétrico.

Embora a interação com o cliente faça com que a IoT ×que em evidência na distribuição, a geração e a transmissão também vão se beneficiar do que ela proporciona. Para Povia, da CPFL, o conceito vem evoluindo na geração convencional e termelétrica, trazendo melhorias na operação e na manutenção preditiva das usinas, deixando-as cada vez mais previsíveis e confiáveis. Ainda segundo ele, as constantes evoluções tecnológicas nas fontes renováveis e influenciado no desenvolvimento de aplicações de IoT. Na transmissão, embora seja uma área pouco explorada pela IoT, já começa a se movimentar para integrar o conceito em suas soluções.

Na fabricante de equipamentos GE, a IoT já está no radar na área de transmissão. Transformadores já são aparelhados com sensores para aferição de índices essenciais para a operação, como fator de potência e umidade do óleo. Com acesso a esses dados durante todo o tempo pela conexão propiciada pela internet das coisas, será possível avaliação de custos e investimentos.

A Node Tech desenvolveu uma tecnologia para o monitoramento de ativos de transmissão baseada em internet das coisas. Partindo das características do sistema de transmissão de energia do Brasil – com grandes linhas que cortam grandes extensões, como a amazônica – ela é capaz de monitorar subestações e linhas com conectividade efetiva. A partir daí ela consegue sensoriar torres e descobrir por exemplo, se ela teve um cabo rompido ou uma inclinação e em que trecho especificamente ele aconteceu, identificando o sinistro. “Conseguimos fazer a manutenção preventiva, identificar o futuro problema e atuar antes que ele ocorra”, avisa Marcio Pereira, CEO da Node Tech. A solução já foi aprovada pelo laboratório central da Eletronorte e homologada. A empresa, que é parceira da IBM para implantá-la em outros países, negocia com possíveis clientes.

A empresa também vem desenvolvendo com as distribuidoras Celpa (PA) e Cemar (MA) uma solução que adota a IoT para monitorar o uso correto e obrigatório de equipamentos de proteção por funcionários que fazem a manutenção na manutenção das redes dentro das cidades. A solução é necessária devido ao número de acidentes de trabalho. “Vamos saber quem está usando ou não e o nome do funcionário, conseguindo monitorar sem intervenção humana, pela internet das coisas vai estar no smartphone do gerente”, aponta Pereira.

Mas se há uma variedade de benefícios que a internet das coisas pode oferecer a todos, ela também pede uma atenção mais que especial para um tema: a segurança dos dados. Segundo Ronaldo Vieira, da F5 Brasil, a segurança para IoT é diferente da oferecida a um usuário de tecnologia da informação em uma empresa. Lá, ele está em um ambiente controlado e se consegue saber tudo que ele está fazendo ali. Já um dispositivo de internet das coisas está em um ambiente aberto, por exemplo na casa do consumidor da distribuidora, requerendo cuidados completamente diferentes por ter um mecanismo de transmissão de dados aberto. “Se algum hacker chegar perto e ter acesso, é um sistema exatamente crítico. Imagina se alguém tomar o controle de atuação de uma operadora, ele pode desligar uma cidade inteira”, alerta o executivo da F5 Brasil.

Sem estar restrito a uma área em que o conceito de IoT pode ser aplicado, o próprio setor vem se mobilizando para debelar a insegurança na rede. Levantamentos de consultorias indicam que o gasto global com segurança da Internet das Coisas chegará a US$ 1,5 bilhão em 2018, subindo 28% na comparação ao dispendido em 2017. Haverá um incremento na avaliação de segurança dos sistemas e nos testes de invasão, mas a necessidade de uma regulação para os aspectos de segurança também se fará necessária.

Os fornecedores e centros de pesquisa também já se mobilizam para que suas soluções tenham a marca da segurança. Na Node Tech, Marcio Pereira conta que a tecnologia que ela desenvolve tem um protocolo próprio que impede o acesso aos dados, sendo totalmente bloqueada. “Sempre tem esse cuidado para o controle do que é transmitido, da informação que é passada. A questão da segurança é fundamental”, explica Pereira.

Considerada a grande preocupação do setor elétrico, o mergulho nesse tema vem se mostrando cada vez mais necessário e imperioso. Renato Povia, da CPFL, coloca a segurança como desafio e preocupação constante do grupo. “É necessário evoluir muito no tema da Cybersecurity, devendo ser um tema essencial para o sucesso da IoT no setor”, frisa. O executivo dá para pontos como a metodologia de operação da rede e a mudança do comportamento do consumidor influenciado pela popularização da GD o mesmo grau de importância que a segurança dos dados.

Estudo feito pela RAD, empresa de soluções em infraestruturas críticas, mostra que as empresas elétricas no mundo apresentam estruturas vulneráveis a ataques cibernéticos. Marco Antônio Rodrigues, Diretor de Vendas da RAD, lembra que o Brasil também está atrasado e que é urgente uma digitalização. O processo seria a conversão das estruturas baseadas no paradigma de Tecnologia da Informação, para o de tecnologia de operação. Segundo ele, esse movimento, vai tornar mais fácil o monitoramento dos equipamentos. Ele também considera a IoT positiva para o setor elétrico.

Já o Lactec participa de um projeto do programa de Pesquisa & Desenvolvimento da Agência Nacional de Energia Elétrica em que desenvolve um medidor eletrônico em rede mesh em que o tráfego de dados é criptografado e tem certificação digital, ficando no mesmo padrão alçando pela internet banking. Outro projeto é o de Secure Cloud, em parceria com universidades europeias que cria soluções para garantir a segurança do smart grid que é executado na nuvem. “Com estas ferramentas, nem mesmo os administradores das empresas provedoras de nuvem poderão acessar os dados do smart grid hospedados”, conta Rodrigo Riella, pesquisador do Lactec.

A Associação Brasileira de Internet das Coisas estruturou um grupo de trabalho. Entidades internacionais como o IoT Security Framework também se movimentam para traçar diretrizes do que seria um padrão ideal de segurança na Internet das Coisas. Em artigo no site da associação, Ronaldo Vieira, que também é associado da Abinc, alerta que a partir de 2018, com o advento da tarifa branca, as distribuidoras terão de lidar com as vulnerabilidades dos medidores e encontrar saídas para fortalecer a integridade desse ambiente. “Na disputa pelo futuro, ganhará quem aliar, à implementação de medidores de energia inteligentes, uma política de segurança transparente, centralizada e comprovadamente eficaz”, aposta.

Em outubro do ano passado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações lançaram os resultados do estudo ‘Internet das Coisas: um plano de ação para o Brasil’, que vai subsidiar a elaboração do Plano Nacional de IoT. A intenção é que esse estudo guie as políticas públicas de 2018 a 2022 nos ambientes de saúde, cidades inteligentes, indústria e rural.

Embora não estando na dianteira da aplicação da Internet das Coisas, o Brasil também não pode ser considerado como lanterna da corrida. Outros setores como agronegócio, mineração e as iniciativas de cidades inteligentes serão líderes na aplicação do conceito no país. Projetos piloto também estão sendo executados por concessionárias. A previsão para 2018 é que por conta da IoT os clientes terão uma melhor experiência nos serviços.

Marcio Pereira, da Node Tech, relaciona a expansão da IoT no Brasil a qualidade da conexão oferecida aqui. Para ele, a internet daqui impede que o Brasil ×que no mesmo patamar de mercados mais desenvolvidos. Ele prevê que a partir do momento em que preço e qualidade da conexão forem bons, a IoT deslancha. “Tem mais smartphone no Brasil que gente, todos estamos conectados, mas a estrada ainda não está a contento”, revela.

Fonte: https://www.canalenergia.com.br/especiais/53056390/a-internet-das-coisas-no-setor-eletrico

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