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Indústria 4.0

A iniciativa Made in China 2025

Em sequência aos estudos do IEDI a respeito da Indústria 4.0, este trabalho analisa o plano estratégico Made in China 2025, lançado pelo Conselho de Estado da China em maio de 2015. O leitor interessado no tema pode encontrar informações adicionais sobre a Indústria 4.0 e o que diferentes países estão fazendo para desenvolvê-la nas Cartas IEDI n. 797 “Indústria 4.0: Desafios e Oportunidades para o Brasil” de 21/07/17, n. 803 “Indústria 4.0: O Futuro da Indústria” de 01/09/17, n. 807 “Indústria 4.0: A Política Industrial da Alemanha para o Futuro” de 29/9/17, n. 820 “Indústria 4.0: O Plano Estratégico da Manufatura Avançada nos EUA” de 11/12/17 e n. 823 “Indústria 4.0: Políticas e estratégias nacionais face à nova revolução produtiva” de 29/12/17, entre outros trabalhos.

Na China, o lançamento do programa Made in China 2025 trata-se de uma resposta do governo à perda potencial de competitividade da indústria chinesa, dado que o país enfrenta concorrência crescente tanto de países em desenvolvimento, com custos de mão de obra igualmente competitivos, como de países desenvolvidos, que se beneficiam de ganhos de eficiência baseados em tecnologias inovadoras.

Parcialmente inspirado na iniciativa da Indústria 4.0 da Alemanha, a estratégia Made in China 2025 (MIC 2025) busca permitir à China escapar da “armadilha da renda média” e atingir o topo da cadeia de valor da indústria de transformação. Esse plano nacional abrangente e de longo prazo, previsto para se desenvolver em três etapas, tem o propósito final de transformar a China em uma potência industrial mundial, baseada em tecnologia avançada, até 2049.

Sua primeira etapa, em que metas quantitativas deverão ser atingidas até 2020/2025, compreende objetivos tais como: modernizar, de forma abrangente, os setores industriais; fortalecer a posição da China como uma grande nação industrial; promover a produção de qualidade e em tecnologias de manufatura inteligente; melhorar a eficiência de energia, de mão de obra e do consumo material; tornar as empresas chinesas líderes nas cadeias de valor da indústria de transformação; alcançar o domínio das tecnologias-chave nas principais indústrias ao invés de importá-las.

A segunda etapa, que deve ser alcançada até 2035, representa, por sua vez, um esforço ainda maior no incentivo à inovação autóctone, especialmente em setores-chave. Na terceira e última etapa, a ser atingida até 2049, os objetivos fixados visam tornar a China um líder mundial nos principais setores industriais de alta tecnologia, impulsionando as atividades inovadores desenvolvidas internamente e mantendo vantagens competitivas do país.

A execução da iniciativa MIC 2025 está sendo liderada pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, com foco em nove tarefas estratégicas, entre as quais, a promoção do uso de produção integrada e digital, especialmente em tecnologia de manufatura inteligente; o fortalecimento da base da indústria chinesa, concentrando-se nos “quatro básicos” (componentes básicos, tecnologias básicas de processamento, materiais básicos e serviços industriais básicos); a aplicação de métodos “verde” de produção, a melhora dos serviços destinados ao setor industrial e a produção de serviço orientada aos serviços; e a internacionalização das empresas industriais chinesas.

São dez os setores definidos como prioritários no MIC 2025, sendo que aqueles de alta e média alta intensidade tecnológica respondem por mais de 40% de valor agregado industrial chinês. Os setores estratégicos para os chineses incluem equipamento marítimo avançado e embarcações de alta tecnologia; ferrovia e equipamento avançado; maquinaria e tecnologia agrícola; equipamentos aeronáuticos e aeroespaciais; produtos biofarmacêuticos e equipamentos médicos de ponta; circuitos integrados e novas tecnologias de informação; tecnologia e equipamentos de geração de energia elétrica; máquinas de controle de produção de alta gama e robótica; veículos de baixa e nova energia; materiais novos e avançados.

Em sua essência, a estratégia do Made in China 2025 almeja a transformação da China em um líder global na fabricação de produtos de alta qualidade e de alta tecnologia até a primeira metade do século XXI, com a substituição gradual da tecnologia importada do estrangeiro pela tecnologia chinesa, desenvolvida e produzida em casa.

Alcançar este objetivo, bem sabem os chineses, depende da capacidade de desenvolver produtos inovadores, de criar marcas internacionalmente conhecidas e de construir instalações modernas de produção industrial. Além de canalizar enormes recursos financeiros para apoiar a modernização tecnológica de suas empresas industriais, tanto as estatais como as privadas, a China adotou um conjunto de medidas e políticas complementares à política industrial, que inclui, entre outras: medidas fiscais e tributárias, reorganização institucional, política de propriedade intelectual e política de recursos humanos. O MIC 2025 é, assim, apenas a parte mais visível do grande esforço chinês em permanecer galgando as fases do desenvolvimento em um mundo em transformação.

Existem, contudo, dúvidas e preocupações quanto à estratégia chinesa entre os analistas de think tanks, consultorias e entidades empresariais ligadas ao setor industrial dos países desenvolvidos. De um lado, há certo grau de ceticismo quanto ao sucesso desta política industrial, que pretende desafiar o primado das economias industriais líderes e de suas corporações internacionais. A posição inicial da China na corrida global para a manufatura inteligente não seria favorável, dada a defasagem atual da indústria chinesa em termos de automação e digitalização em comparação com os países industrializados.

De outro lado, é grande a preocupação com os impactos da estratégia chinesa que visa praticamente todas as indústrias de alta tecnologia que contribuem fortemente para o crescimento econômico nas economias industrializadas. Teme-se que o governo chinês intervenha sistematicamente nos mercados domésticos, de modo a beneficiar e facilitar o domínio econômico das empresas chinesas e a prejudicar os concorrentes estrangeiros, acelerando a aquisição de empresas internacionais de alta tecnologia por parte de empresas e fundos chineses.

Fonte: http://www.iedi.org.br/cartas/carta_iedi_n_827.html

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