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A Revolução das Coisas – Contexto nacional e global de IoT

Por Daniel Laper
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Nas últimas décadas temos experimentado uma evolução tecnológica sem precedentes na história, numa velocidade e escala em aceleração contínua. Nunca tanto aconteceu em tão pouco tempo, e com um impacto tão grande na dinâmica da sociedade, na forma de vida das pessoas e na economia. Tendo como motores propulsores a popularização dos computadores pessoais seguida da chegada da internet na década de 90, movimento depois exponenciado com o surgimento dos smartphones e todas as possibilidades que eles trouxeram, vimos mudanças radicais mesmo nas rotinas mais cotidianas, como a forma como nos transportamos, alimentamos, entretemos, relacionamos com nosso banco e até mesmo como nos relacionamos entre nós. Dando uma escala dessa evolução de forma global, dados da Deloitte (1) apontam que o número de usuários de telefones celulares saiu de menos de 20% da população mundial em 2001 para aproximadamente 100% atualmente. Ou seja, já podemos dizer que vivemos numa sociedade super conectada onde os dados já valem mais do que qualquer outra antiga referência de valor como ouro ou petróleo, com empresas de tecnologia como Apple, Google, Microsoft, Amazon e Facebook figurando como as mais valiosas do mundo (2), e outras como Airbnb, Uber e Netflix impactando a vida de bilhões de pessoas todos os dias.

O crescente desenvolvimento tecnológico nas mais diversas áreas, os dispositivos, as aplicações, plataforma de dados e conectividade, estão habilitando o amadurecimento de uma nova fase nessa revolução tecnológica, onde a exponencialidade das relações e comunicações transcende a esfera humana e habilita a comunicação, a interação e a criação de valor entre virtualmente tudo: a Internet das Coisas (IoT, ou Internet of Things, na sigla em inglês). Nesse novo paradigma, todos os “objetos” passam a ter voz, criando possibilidades infinitas de digitalização das mais diversas relações.

Não que a Internet das Coisas já não aconteça hoje. Toda vez que conectamos nosso smartwatch ou fone sem fio ao nosso celular, pagamos nosso almoço numa máquina de cartão de crédito no restaurante ou instalamos um rastreador de segurança no nosso carro, já estamos fazendo uso dessa comunicação entre máquinas. O que estão mudando drasticamente são as possibilidades e a escala. Segundo estudos da Mckinsey (3), existem hoje mais de 15 bilhões de dispositivos conectados em todo o mundo, incluindo smartphones e computadores, porém esse número pode mais que dobrar até 2025, atingindo 35 bilhões de dispositivos conectados (aproximadamente cinco vezes a população mundial hoje). O estudo ainda aponta que a Internet das Coisas poderá ter um potencial impacto econômico equivalente a até 11% da economia mundial em 2025 nos cenários mais otimistas, chegando a US$ 11,1 trilhões por ano até essa data. Esse valor virá de diferentes formas, tanto trazendo maior eficiência operacional e redução de custo quanto através de novas oportunidades de negócio, e estima-se que até 40% desse potencial deve ser capturado por economias emergentes. No caso específico do Brasil, dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) (4) mostram que esse impacto econômico anual até 2025 pode representar de US$ 50 a US$ 200 bilhões. No próximo artigo descreveremos em mais detalhes como essas oportunidades se apresentam, respectivos desafios e como tanto a iniciativa pública quanto a privada estão colaborando para que esse cenário se realize.

A Internet das Coisas representa uma oportunidade cada vez maior para o mundo, no entanto a forma pela qual cada país está desenvolvendo esta oportunidade depende de suas especificidades geográficas, sociais e econômicas, o que cria necessidade de estratégias específicas para cada país. A exemplo de outras indústrias, os países do hemisfério norte lideram hoje a adoção de tecnologias de Internet das Coisas, servindo de inspiração para o restante do mundo. Nesses mercados, segundo benchmark feito pelo BNDES (5), a maior parte dos casos de uso em IoT até hoje se concentram na vertical de cidades inteligentes, manufatura avançada, veículos conectados e logística, e smart energy (medição remota inteligente). Para potencializar o fomento desse desenvolvimento são implementadas ações tanto na iniciativa privada quanto pública, indo de linhas de investimento e incentivo a criação de políticas e regulações que flexibilizem e estimulem o desenvolvimento do ecossistema, semente para o desenvolvimento dos casos de uso.

No contexto brasileiro, o tema está com grande importância tanto na agenda pública quanto privada. Dados do Teleco (6), portal e consultoria referência no mercado nacional de telecomunicações, apontam que hoje temos no país cerca de 25 milhões de objetos conectados, na sua grande maioria nas verticais de carros conectados e sistemas de pagamento. Reconhecendo a importância do tema de Internet das Coisas para o país, o BNDES, em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), criou em 2016 a iniciativa do Plano Nacional de IoT, que tem por objetivo propor um plano de ação estratégico para o país, dividido em quatro grandes fases: Diagnóstico Geral e Aspiração para o Brasil, Seleção de verticais e horizontais, Aprofundamento e elaboração de plano de ação (2018 -2022) e Suporte à implementação. O plano (7), que contou com mais de 2.000 contribuições dos mais diversos atores do ecossistema e foi liderado pela McKinsey, CPqD e Pereira Neto & Macedo (além do BNDES E MCTIC), foi concluído e teve seu decreto assinado em junho de 2019, identificando as verticais prioritárias para o país (Cidades, Saúde, Fábricas e Rural), assim como as horizontais transversais a todos os ambientes, fundamentais para o desenvolvimento dos mesmos: Capital Humano, Inovação e Inserção Internacional, Regulatório, Segurança e Privacidade, e Infraestrutura de Conectividade e Interoperabilidade.

Tão importante quanto os benefícios econômicos são os ganhos para a sociedade. Nesse sentido, em junho de 2017 a União Internacional de Telecomunicações (na sigla em inglês, ITU), agência da Organização das Nações Unidas (ONU) especializada em tecnologia da informação e comunicação, relacionou como a IoT pode contribuir para o atingimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, sumarizado nos dez pontos no quadro abaixo (8):

Imagem 1: Declaração Internacional em IoT para desenvolvimento sustentável

Para atingir tais objetivos e colocar em prática soluções de Internet das Coisas de forma sustentável e escalável, é necessário entender sua cadeia de valor e a relevância dos representantes de cada um dos nós dessa cadeia, e é esse contexto que exploraremos em mais detalhes no próximo artigo.

Referências:

  1. Deloitte – Insights sobre Transformação Digital e Oportunidades para TICs no Brasil 2018
  2. Statista – The 100 largest companies in the world by market value in 2019
  3. Mckinsey – Internet das coisas já é realidade, porém falta regulamentá-la (2016)
  4. BNDES – Plano Nacional de IoT – Relatório Final do Estudo
  5. BNDES – Plano Nacional de IoT – Benchmark de iniciativas e políticas públicas
  6. Teleco – Internet das Coisas no Brasil
  7. BNDES – Plano Nacional de IoT – Relatório do Plano de Ação
  8. IoT Week 2017 – Internet of Things Declaration to Achieve the Sustainable Development Goals

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Principais verticais de IoT, oportunidades e desafios - ABINC 5 de maio de 2020 - 12:03

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