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Internet das Coisas e a Política 4.0

Por Flávio Maeda

Nas minhas entrevistas e palestras recentes tenho ressaltado que a internet das coisas (ou IoT – Internet of Things) é, a meu ver, a Internet 4.0, ou a 4ª onda da Revolução da Internet. Ou seja, IoT é nada mais nada menos que a quarta fase de uma revolução que começou em meados dos anos 90. A primeira fase começou revolucionando a forma como acessamos conhecimento, informação e entretenimento. A segunda onda mudou a forma pela qual as empresas e pessoas realizam suas transações diárias com outros sistemas, sejam elas financeiras (e-banking) ou comerciais (e-commerce). Na terceira onda, tivemos a entrada das pessoas na chamada mídia social, nas quais todos nós deixamos de ser apenas consumidores passivos de conteúdo e passamos também a ser criadores ativos no mundo digital.

Estamos presenciando a expansão da 4ª Onda da Revolução da Internet, a Internet 4.0 ou simplesmente, a Internet das Coisas, como ela tem sido chamada. Isso está acontecendo com a conexão de todas as coisas do dia a dia à rede mundial de computadores, softwares rodando em nuvem, bem como a outras tecnologias emergentes como Inteligência Artificial, Realidade Aumentada, Big Data, Visão Computacional, combinação essa também batizada de 4ª Revolução industrial ou Indústria 4.0.

Em um primeiro momento, a Internet das Coisas irá proporcionar ganhos de eficiência e produtividade em vários segmentos de negócios, estimados por consultorias globais na casa dos trilhões de dólares. Porém, além de ganhos operacionais, todas as empresas irão perseguir novos modelos de negócios e novas fontes de receitas. Para isso, todas elas passarão a ter algum componente de IoT em suas ofertas, ou, em alguns casos, terão modelos de negócios 100% centrados na Internet das Coisas. Mesmo os fabricantes de produtos tradicionais terão que se transformar em orquestradores de produtos e serviços digitais, muitas vezes de terceiros, para proporcionar experiências únicas aos seus clientes e resolverem problemas de formas totalmente novas. Não se trata apenas de colocar uma anteninha e conectar as coisas do dia-a-dia à Internet (como um tipo de controle remoto moderno), trata-se de encontrar formas de resolver problemas com abordagem não mais centradas em produtos e serviços isolados, mas sim por meio de ecossistemas de produtos e serviços digitais, que, operando de forma coordenada e orquestrada, fornecerão novas formas de resolver os problemas do dia a dia. As empresas que souberem ser essas orquestradoras de novas experiências para seus clientes, sairão na frente.

Isto pode parecer confuso, mas é fácil de entender através de exemplos. A empresa Ford é uma empresa centenária e conhecida por ser a produtora de carros e caminhões, produtos que estão nesse momento passando por uma radical mudança, transformando-se em produtos conectados e, com a aplicação de inteligência artificial, veremos em um futuro próximo a expansão comercial dos carros autônomos. Poderíamos ficar restritos a essa grande revolução pela qual esse mercado já está passando, se tivéssemos uma visão apenas centrada em produto. Porém vou aqui tentar ilustrar o conceito descrito no parágrafo anterior, com um exemplo da própria Ford Caminhões no Brasil, chamado de “Boné Alerta”. O que a Ford Caminhões, uma indústria automobilística tem a ver com bonés? Deixando de pensar apenas em seus produtos e pensando e centrando o foco em seus clientes, a Ford identificou que um dos grandes problemas envolvendo carros e caminhões, são os acidentes causados por motoristas que adormecem ao volante. Pensando nisso a Ford desenvolveu uma solução, que combina produtos e serviços digitais, alguns desenvolvidos por parceiros ou simplesmente disponíveis gratuitamente na Internet, para criar o Boné Alerta, que usando sensores e algoritmos de inteligência artificial, se propõe a antecipar o sono em motoristas ao volante, e alertá-los a tempo de evitar o adormecimento ao volante. A experiência da Ford pode ser vista no vídeo abaixo:

Outro exemplo de inúmeros casos semelhantes, que estão surgindo todos os dias, vindos de empresas desde startups a grandes empresas tradicionais, que estão trilhando a chamada Transformação Digital, é o colchão inteligente que vi na Feira de soluções do IoT Solutions World Congress em Barcelona este ano. Nada mais tradicional que um colchão, produto que vem sofrendo ao longo dos anos melhorias incrementais, mas que não mudou muito nas últimas décadas. Mas, de novo, precisamos não focar no produto, mas nas necessidades dos clientes, e foi isso que essa empresa fez. Ao invés de se limitar a ser uma empresa fabricante de colchões, ela focou em ser uma empresa centrada nos problemas de seus clientes e sua nova solução tem o colchão como mais um componente de uma inovadora solução mais completa, que combina dados gerados por sensores, wearables, conectividade e algoritmos de inteligência artificial, que visam ajudar seus clientes a ter uma melhor noite de sono, resolvendo problemas de milhares de pessoas que sofrem de distúrbios do sono.

Além do benefício de abrir mercados antes inexplorados e impensáveis para as empresas centradas em produtos tradicionais, criando novas linhas de receita e oportunidades de crescimento, nesse novo mundo 4.0, as empresas de produtos tradicionais estarão cada vez mais próximas de seus clientes. Em vez de projetar um produto, lançá-lo no mercado, vendê-lo e distribuí-lo, e nunca mais ter retorno do produto (a não ser quando ocorrer um problema e a assistência técnica for acionada), com os produtos da Indústria 4.0, as empresas poderão saber em tempo real, como seus clientes estão usando seus produtos, se estão satisfeito, e, principalmente, descobrir (com base nos dados) novos problemas e necessidades de seus clientes, que podem ser novamente resolvidos pelas soluções da Internet 4.0.

Muitos desses projetos ainda são experimentos, provas de conceitos ou MVPs (Produtos Minimamente Viáveis), mas essa nova Revolução Industrial irá fazer surgir cada vez mais exemplos como esses dois casos apresentados anteriormente. Não sabemos o que irá surgir no futuro, assim como ninguém pode prever o surgimento de soluções de Internet do nosso dia a dia, como o Uber (que revolucionou uma indústria tradicional de táxi) e o Airbnb (que fez o mesmo no setor hoteleiro). Mas certamente a Internet 4.0 fará surgir soluções no futuro próximo que hoje certamente acharíamos absurdas.

Mas vocês devem estar se perguntando a razão do título desse artigo falar em Política 4.0. Gosto de acompanhar análise política, e no começo da campanha presidencial de 2018, ouvi muitos comentaristas políticos tradicionais, com limitado conhecimento do que estamos vivendo em termos de Revolução da Internet, afirmarem que ainda não havia chegado a hora das campanhas políticas tradicionais serem alteradas pelo marketing político digital, baseado na Internet e na mídia social. Que a hegemonia da TV nesse setor ainda seria determinante e não seria agora que esse status-quo seria consideravelmente impactado (como já tem ocorrido com a expansão da Internet de plataformas digitais de streaming, como a Netflix). Presenciamos mais uma vez uma grande transformação no modo operandi do nosso dia a dia, alavancado pela Internet. Em poucas semanas, os mais desavisados viram um candidato que tinha apenas 8 segundos no horário político eleitoral de rádio e televisão, ser eleito presidente do Brasil, em uma campanha quase que totalmente baseada na Internet. Na semana do primeiro turno das eleições o agora presidente eleito, Jair Bolsonaro, liderou as interações no Facebook, com mais de 5 milhões de interações e cresceu de cerca de 200 mil seguidores (em 2014) para 9 milhões de seguidores ao final da campanha. Para os mais desavisados, tudo isso pode parecer um fenômeno acidental, mas pelo contrário, foi resultado de um processo que se iniciou 4 anos atrás, de criação de uma forte base de seguidores nas redes sociais. Isso permitiu ao candidato a vantagem de não simplesmente falar com seus potenciais clientes (eleitores) na curta época da campanha, mas sim de estar em contato contínuo com eles durante todo esse período de 4 anos, conhecendo suas necessidades e a efetividade de sua estratégia política, quase que em tempo real, superando os políticos da centenária política tradicional.

Não sabemos como será a política em um mundo dominado pela Internet das Coisas no futuro (será que o seu colchão ou sua roupa terão participação na sua decisão de voto?), mas podemos dizer com certo nível de certeza, que as empresas dos hoje chamados produtos tradicionais, que também não se reinventarem e centrarem as suas estratégias em Internet e análise de dados, serão ultrapassadas e “varridas do mapa”, no mundo totalmente conectado que se aproxima. Da mesma forma veremos o surgimento de startups (empresas inovadoras e de crescimento acelerado) se tornarem os líderes da economia nos próximos anos da 4ª fase da revolução da internet.

Sobre o autor: Flávio Maeda é Presidente da ABINC e Engenheiro Mecatrônico POLI/USP.

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