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IOST: A internet das pequenas coisas

Internet das Coisas (IOT – Internet of Things) é a nova onda da internet que veio para ficar e, ao contrário da primeira e segunda ondas, vai revolucionar todas as áreas de negócios. Ninguém estará a salvo.

Porém o termo IOT não é o nome de uma tecnologia, mas sim uma definição guarda-chuva que abrange várias tecnologias e assume formas diferentes dependendo da aplicação e do tipo de coisa.

IOT é tão abrangente que engloba várias dimensões, começando por coisas conectadas e ligadas ao nosso CORPO (os chamados wearables), COISAS conectadas a nossa CASA definindo as chamadas Smart ou Connected Homes. Saindo das nossas casas temos os CARROS conectados, uma indústria nascente que terá como auge os carros autônomos (que já estão circulando em fase experimental em algumas cidades do mundo) e que terão conectividade à internet como algo tão natural como o combustível fóssil dos carros de hoje. A penúltima dimensão é a INDÚSTRIA conectada, com máquinas e equipamentos interagindo entre si e com sistemas de backend na nuvem, compondo o que o mercado tem denominado de 4ª Revolução Industrial ou Indústria 4.0. E chegamos à dimensão máxima que são as CIDADES conectadas ou Smart Cities, pelo termo que tem sido mais adotado, com coisas de todos os tipos conectadas para melhorar a vida das pessoas em grandes centros urbanos.

Recentemente encontrei uma nova classificação para IOT que tem a ver com o “tamanho” das coisas. Não apenas com o tamanho físico, mas também com o tamanho da conectividade que essa coisa requer.

Essa classificação foi adotada pela empresa operadora de telecomunicações, SK Telecom, da Coreia do Sul, quando a mesma elaborou a sua estratégia para IOT, a qual foi motivada pela estagnação e queda das receitas de telefonia celular tradicional (MVO) da empresa e pela necessidade de procurar por novas fontes de receitas para sustentar o crescimento. A empresa tinha claro que IOT será o grande próximo motor de crescimento, mas que teria também que ter um foco claro para saber por onde começar.

A SK Telecom decidiu então focar no que chamou de Internet das Pequenas Coisas ou IOST – Internet of Small Things. A empresa prevê um número gigante de “pequenas coisas” que irão dominar o mercado no futuro próximo, criando valor para os negócios através de pequenos volumes de dados e ao mesmo tempo um número enorme de coisas conectadas. Devido ao relativamente baixo investimento necessário para esse tipo de conectividade e o baixo custo dos dispositivos das “pequenas coisas” a empresa prevê uma rápida expansão do mercado doméstico de IOST na Coréia do Sul (estimado em 2 bilhões de dólares) e chegou à conclusão que era imperativo dominar esse mercado o mais rápido possível.

Segundo a SK Telecom, IOT pode ser classificado em 3 áreas:

  • Área 1: Coisas que requerem um alto volume de dados, conectividade em tempo real e mobilidade (Ex: carros conectados, carros autônomos, câmeras conectadas, etc.)
  • Área 2: Requerem conectividade em tempo real e mobilidade, porém não tão alto volume de dados (Ex: serviços de monitoramento e rastreamento de veículos, tornozeleiras eletrônicas, entre outros).
  • Área 3: Não requerem transmissão frequente de dados e transmitem baixos volumes de dados, área aonde estão classificadas as coisas de IOST. Casos de uso dessa área estão em serviços de medição, rastreabilidade e monitoramento de ativos e pessoas, com pouca ou baixa mobilidade.

Para entrar nesse mercado de forma rápida, a empresa optou por construir uma rede LPWA, usando a tecnologia LORA. Essa tecnologia permite que coisas enviem e recebam dados, em pequeno volume, consumindo baixa potência, e por isso usando baterias que podem durar por vários anos. A tecnologia LORA, bem como a sua concorrente mais direta, a Sigfox, utilizam faixa de frequências não-licenciadas do espectro (unlicensed band ou conhecido também como faixa ISM).

O plano de negócios da empresa, cuja execução foi iniciada em junho de 2016, prevê um investimento de 90 milhões de dólares para a construção de uma rede LORA nacional, cobrindo 99% da população e 99% do território do pais, com break-even do investimento previsto para 2018. A primeira fase do investimento (45 milhões de dólares) foi realizada em apenas 3 meses, tempo no qual estações base LORA foram instaladas em todo o país, juntamente às estações base LTE já existentes. Como a tecnologia LORA permite um alcance maior que a tecnologia LTE, os gateways LORA foram instalados em apenas 20% das estações base LTE. Uma segunda fase do plano prevê mais 45 milhões de dólares para cobrir áreas de sombra.

Na segunda metade de 2016 foi iniciada a comercialização de 20 tipos de serviços IOT (no Mercado B2B/B2G), que incluem 7 tipos de serviços/soluções: AMI (Application Management Infrastructure para Utilities, como medição de gás/água/eletricidade), gestão de segurança industrial, monitoração de meio-ambiente, gestão de segurança em obras, iluminação pública, rastreamento, gestão de ativos hipotecados ou alugados. Para o mercado B2C, soluções de rastreamento de pessoas, propriedades e animais de estimação serão lançadas em 2017.

Um ponto crucial nessa estratégia foi a ajuda dada pelo South Korean Ministry of Science, ICT, and Future Planning (MSIP – o equivalente ao nosso MCTIC), que decidiu ajustar a potência máxima de transmissão permitida para a faixa de frequências não-licenciada no país (917 – 923.5 MHz), de 10mW para 200mW para redes IOT LPWA, após intensos estudos e testes que envolveram as operadoras de telecomunicações, empresas de IOT e a National Radio Research Agency. Essa medida visa estimular o desenvolvimento econômico da Internet das Coisas no país e baseia-se no fato de que quanto maior a potência maior o alcance da rede e menor o investimento em infraestrutura necessário, acelerando a implantação de redes de IOT. O resultado esperado dessa medida é uma redução de 70% no custo de instalação das redes LPWA de IOT no país.

A Coréia do Sul serve como exemplo de país que com visão de futuro, planejamento e investimentos corretos em educação e infraestrutura soube aproveitar a janela de oportunidade dos anos 70 para se tornar um grande player mundial da indústria eletroeletrônico. Agora deseja fazer o mesmo no nascente mercado de IOT.

Em dezembro de 2016, o Grupo de Trabalho da ABINC, criado para as tecnologias LPWA, realizou um estudo sobre o marco regulatório brasileiro atual para tecnologias LPWA. Aqui no Brasil, ao contrário da Coréia do Sul e em outros países do mundo, parte da faixa de frequências não licenciadas (o chamado espectro de radiação restrita) foi transferido para a telefonia móvel celular, gerando um grande obstáculo para a expansão desses tipos de redes no Brasil.

Esperamos que esse exemplo vindo da Coréia do Sul sirva para abrir os olhos das nossas autoridades governamentais para a importância e urgência do tema, de forma que o Brasil não perca “o bonde da história” antes que mais uma janela de oportunidade se feche. Vamos esperar o que vem no Plano Nacional de Internet das Coisas que está em gestação ao longo de 2017 para ver o que acontece.

Fonte do artigo: http://www.netmanias.com/en/?m=view&id=reports&no=10134 (SK Telecom’s Massive IoT Deployment through LoRa for Small Things – 13 de julho de 2016)

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