Oportunidades para as cidades inteligentes solucionarem problemas provocados pela pandemia

Os projetos de cidades inteligentes foram impactados em todo o mundo pela pandemia de Coronavírus e voltam a ganhar força à medida que pesquisadores e desenvolvedores se concentram nas soluções com maior impacto para essa nova realidade.

Assim como as atividades comerciais e industriais tiveram que se adaptar e continuam a buscar alternativas para se manterem de pé, os projetos de Cidades Inteligentes deram uma guinada ao direcionar todo os esforços para resolver os problemas que afetam o coletivo. Todos que trabalham na transformação das cidades estão se debruçando para mitigar os problemas causados pela pandemia, isso provocou uma mudança no cenário de inovação, fazendo com que ideias mais conceituais perdessem espaço.

“A pandemia desacelerou tudo aquilo que não era emergencial, o que era inovação por inovação. Mas algumas aplicações que efetivamente resolvem a vida dos cidadãos foram muito aceleradas. Projetos de cidades inteligentes que são compatíveis com esse novo cenário estão sendo pensados e estão sendo encaminhados com muita seriedade”, afirmou Aleksandro Montanha, presidente do Comitê de Cidades Inteligentes da Associação Brasileira de Internet das Coisas – ABINC.

Montanha participou do quadro de tecnologia da Rádio CBN Maringá apresentando sua visão sobre as mudanças provocadas pela pandemia no planejamento tecnológico das cidades. O especialista em tecnologia aproveitou a oportunidade para apresentar essas novas oportunidades para os projetos de cidades inteligentes pensadas para melhorar a vida das pessoas em uma nova realidade onde se prioriza o adensamento das cidades.

Trechos da participação de Aleksandro Montanha na CBN

Cidade de 15 minutos

O conceito não é novo, e vem sendo debatido há algumas décadas. Trata-se de reorganizar os centros urbanos para atender a demanda da população dentro de microrregiões. A ideia é que todo tipo de atendimentos públicos e privados estejam em até 15 minutos dos lares. Isso evitaria grandes aglomerações em transportes públicos e criaria mais áreas para que as pessoas pudessem circular com segurança sem automóveis, como calçadões e ciclovias.

Em alguns países as redes de supermercado estão adotando o conceito dentro de sua estratégia logística para se aproximar mais do cliente final. Pulverizando as unidades de loja em pequenos mercados, pequenas farmácias, o serviço passa a ser mais bem personalizado a demanda local.

A ideia também abriu espaço para o uso de veículos autônomos nas entregas, outra realidade ainda distante do Brasil, mas que segundo Montanha pode se tornar possível assim que tivermos investimentos fortes nesta área ou algum tipo de benefício fiscal para alavancar a aplicação.

Com centros urbanos cada vez maiores, e fluxo intenso nos meios de transporte, as pessoas não querem ficar aglomeradas em transportes públicos, principalmente durante uma pandemia. A ideia é você ter todos os tipos de soluções e atendimentos públicos e privados em até 15 minutos de onde você e esta é uma tendência mundial.  A tendência é reorganizar as áreas urbanas.

A cidade inteligente é assim, não é só desenvolver e aplicar a tecnologia, ela tem que ser o meio. O fim é resolver os problemas das pessoas com a tecnologia e é isso que está acontecendo. Agora nós temos mais diretrizes, tem o governo bem mais alinhado com a tecnologia por que ele já entendeu que ela resolve muitas coisas. A tendência é que a gente tenha mais planejamento urbano, mais planejamento de atendimento de microrregiões.

Mercado de eletrônicos

Algumas das transformações na sociedade causadas pelo coronavírus foram absorvidas pelo mercado, principalmente o de eletrodomésticos, que incorporou em seus aparelhos a função de descontaminação. O que se tornou necessário em nossa rotina agora também é transformado em produtos e serviços disponíveis para as pessoas. Essa função, por exemplo, já está disponível em ar-condicionado e robôs que limpam a casa.

Saúde

A inteligência artificial vai trazer muitas outras aplicações que não imaginávamos que poderiam ser realizadas por um computador ou sendo auxiliadas por um, como, por exemplo, a realização de consulta médica online. Em pouco tempo, mesmo as consultas médicas presenciais, serão assistidas por algum tipo de IA. É um momento de transformação, a tecnologia está ai e todas as empresas de todas as áreas irão utilizar esse tipo de recurso.

Segurança

Não existe um ambiente 100% seguro, ainda assim há varias medidas que se pode tomar para tornar o ambiente um pouco mais seguro e tranquilo nas suas operações e transações. Uma coisa que se tornou uma premissa para que o Brasil possa realizar suas transações e seus negócios internacionais é a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Com ela, aqueles que são responsáveis pelo sistema ou pela operação do sistema terão que oferecer muito mais segurança para o usuário final.

Muitas destas informações agora devem se tornar anônimas. Não pode mais guardar nenhum tipo de dado pessoal do cliente, não pode guardar nada que o identifique. Isso por si só já trás um tipo de segurança. Nós estamos passando por um período de transição, muitos destes problemas que temos hoje com segurança serão resolvidos, mas outros estão por vir. Estamos agora sendo bombardeados por uma série de inovações envolvendo o hardware, o que chamamos de IoT. Esses hardwares são de fabricantes diferentes e muitas vezes nós não conhecemos o que estão colocando ali dentro. Isso tudo tem que ser resolvido. Mas é um processo de transição e aprendizado e eu acredito que as pessoas terão muito mais cuidado para fazer as transações. Os próprios softwares são um pouco mais seguros para que você possa digitalizar sua vida sem se preocupar muito.

Emprego

A transição econômica vai gerar desemprego, porque tem muitas pessoas que são especializadas em realizar atividades que podem der substituídas pela tecnologia. A substituição traz economia para as empresas e consequentemente o desemprego. Mas também gera outras oportunidades. A área de tecnologia – de entendimento da tecnologia, não necessariamente você precisa ser da área – está muito carente de mão de obra e é uma mão de obra que paga bem. A tecnologia tem gerado oportunidades de trabalho que tem um valor agregado maior.

Retrospectiva 2020: Soluções de mobilidade e IoT, uma oportunidade nos tempos de crise

Em um período de muitas incertezas a redução de custos é extremamente importante para as organizações, mas é importante que a medida seja acompanhada de melhorias nos processos produtivos. Encontrar este equilíbrio é um grande desafio que pode ser alcançado com a adoção de soluções baseadas em internet das coisas (IoT).

Dados disponibilizados pela Vodafone apontam que 51% dos usuários afirmam que a IoT está aumentando a receita e gerando novos fluxos de receita. Destes, 36% reportaram um aumento na receita de 20%. E ainda, 29% dos usuários reportaram redução dos custos de mais de 20%.

Estas informações foram apresentadas no Webinar: Soluções De Mobilidade e IoT, uma Oportunidade nos Tempos De Crise, apresentado por Daniel Fuchs. Também são apresentados dados em diversas verticais de IoT que estão impactando positivamente os negócios e organizações em todo o mundo. Em sua apresentação ele traz cases nas verticais de mobilidade urbana, telemedicina, rastreamento automotivo, meios de pagamento e segurança.

Fuchs é diretor de inovação na Datora Telecom, tradicional operadora MVNA e Arqia, provedora de conectividade e soluções para M2M e IoT. Possui experiência de mais de 25 anos ajudando pessoas, empresa e coisas a se comunicarem. Daniel Fuchs se define como um influenciador na área de tecnologia e se coloca na posição dos clientes no momento da venda, garantindo a melhor solução para as necessidades, focando no relacionamento de longo prazo.

No webinar, Daniel apresenta dados sobre o crescimento da IoT no mundo, que pode chegar a 75,4 bilhões de equipamentos conectados em 2025. A expectativa é que o setor movimente cerca de US$ 19 trilhões até a próxima década. Deste montante, o Brasil será responsável por US$ 352 bilhões. Os dados refletem uma projeção positiva, principalmente quando se trata do mercado interno, já que o país possui uma das maiores cargas tributárias mundiais, o que impede diretamente o crescimento do setor.

A pandemia de Coronavírus trouxe grandes impactos para as economias afetando um dos mais lucrativos setores, o petróleo. Grandes empresas como a Exxon reduziram seu plano de investimento para 2020 em 30% ou mais. Por outro lado outros setores tiveram alta na demanda como o setor de saúde. A crescente necessidade de acompanhamento médico fez surgir diversas possibilidades através do ecossistema de IoT. É o caso de consultas remotas, monitoramento de pacientes e assistência através de robôs.

O risco de uma nova pandemia, ou de outro agravamento da Covid-19, está levando os lideres a considerar a maior automatização de seus processos, esta medida visa acelerar a recuperação da empresa durante situações de crise. Outras ferramentas como o acesso remoto também cresceram em adoção, pois conectam pessoas com as suas máquinas e aplicações. Caso você não tenha consigo participar da transmissão ao vivo, você pode assistir a gravação clicando aqui.

Principais verticais de IoT, oportunidades e desafios

Dada a amplitude potencial do impacto que soluções de Internet das Coisas trazem para a economia e a forma como vivemos, normalmente as análises são organizadas por verticais, que compreendem segmentos da nossa sociedade, cada qual com suas necessidades, oportunidades e desafios. Essas verticais, também chamadas de ambientes, impactam em diferentes níveis os distintos setores da economia, como pode ser visto no estudo feito pelo BNDES no Quadro 2 (1):

Principais verticais de IoT

Para melhor tangibilizar os casos de uso, ou seja, as aplicações práticas, enumeramos abaixo alguns exemplos já utilizados hoje e tendências para algumas das principais verticais de IoT:

Veículos e Logística: Essa vertical, em conjunto com as máquinas de cartão de crédito, representa hoje a grande parte das aproximadamente 23 milhões de conexões celulares presentes no Brasil, segundo o Teleco (2). Esse número ainda representa uma penetração baixa no mercado potencial de mais de 65 milhões (3) de veículos circulantes no país. Os principais casos de uso nessa vertical são monitoração remota de indicadores, mais comum hoje em veículos de maior valor, e rastreamento do veículo e da carga para prevenção de furto e auxílio na recuperação em caso de roubo. A evolução das tecnologias está permitindo um rastreamento cada vez mais eficaz e de um número de veículos e ativos cada vez maior, resultado também da queda do custo em função do aumento de escala. Como forte tendência nessa vertical se destacam os veículos autônomos, que se espera que sejam viabilizados com a chegada da tecnologia 5G.

Cidades Inteligentes: Refletindo um fenômeno mundial, o crescente aumento da população urbana do Brasil, hoje representando aproximadamente 85% da população (~175MM de pessoas) segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) (4), faz com que as oportunidades nessa vertical sejam cada vez maiores. Por outro lado, a complexidade de estabelecimento das relações no âmbito público torna o desafio de viabilização de modelos de negócio nesse setor proporcional ao tamanho das oportunidades. Alguns exemplos de casos de uso nessa vertical são soluções de aumento de eficiência em mobilidade urbana (como monitoração em tempo real de fluxo de veículos, pessoas, transporte público e vias urbanas, combinadas com reprogramação de semáforos inteligentes e rotas dos serviços públicos), sensoriamento de condições de ambiente (sensores de qualidade do ar, ruído, inundação e vazamento de gás e água), segurança pública (como através de câmeras e aplicações de processamento de imagem, ou sensores de deslizamento ou outros tipos de desastre natural), iluminação pública (permitindo gestão remota de intensidade da iluminação e consequente redução de custos com eletricidade) e automação das cadeias de eletricidade, água e gás, reduzindo os custos e aumentando a eficiência desses serviços. A Figura 4 apresenta a variedade de casos de uso possíveis no âmbito de Cidades Inteligentes, incluindo alguns de seus motivadores segundo dados do BNDES (5):

Principais verticais de IoT

Saúde: Com o aumento da expectativa de vida da população, e sua mudança de hábitos alimentares e de atividade física, aumentaram também os desafios na forma de gerir saúde. Para tangibilizar esse desafio, dados do BNDES (6) mostram que na última década houve aumento de 62% na incidência de diabetes e de 14% na incidência de hipertensão, que hoje 40% dos brasileiros vivem com doenças crônicas, e até 2030 a população brasileira acima de 60 anos deverá triplicar. Por outro lado, tecnologias interessantes vêm se popularizando nos últimos tempos, como o aumento do uso de wearables (tecnologia vestível), como smartwatches (relógios) e bands (pulseiras). O aumento do uso de “roupas e acessórios conectados”, e a maior maturidade na utilização por médicos, laboratórios e hospitais dos dados coletados, representam uma das oportunidades de otimizar e antecipar diagnósticos e melhor entender os sinais vitais de cada pessoa, tais como pressão, glicose, ou até mesmo queda de idosos. Do lado dos hospitais e médicos, as oportunidades vão desde a melhor gestão de ocupação e utilização/disponibilidade de espaços e equipamentos médicos a rastreamento de pacientes, médicos e até objetos, evitando, por exemplo, que algo como uma gaze ou uma tesoura seja esquecido dentro de um paciente, ou monitorando se a frequência de higienização das mãos por parte dos médicos, prática importante para evitar infecções, está adequada.

Indústrias: Para contextualizarmos a relevância dessa vertical, dados da Confederação Nacional das Indústrias (CNI) (7) apontam que a indústria como um todo representa 21,6% do PIB do Brasil, mas responde por 70,8% das exportações, por 67,4% do investimento em pesquisa e desenvolvimento e por 34,2% da arrecadação de tributos federais (exceto receitas previdenciárias). Entre os principais setores da indústria nacional, destacam-se as indústrias de base (petróleo, gás natural e mineração) e manufaturas (principalmente automotivo e têxtil).

No campo da tecnologia, essa vertical já vem sendo transformada pelo que vem sendo conhecido como Indústria 4.0, ou Quarta Revolução Industrial. Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) (8), essa transformação se caracteriza pela digitalização dos mais diversos processos, em que a tecnologia da informação se torna parte integral dos processos industriais, o uso de Big Data e Analytics aperfeiçoam a qualidade da produção e a produtividade é melhorada pelo uso de robôs automatizados, simulações e realidade aumentada, e a Internet das Coisas desempenha importante papel potencializador, expandindo de forma crescente a coleta de informações e automação dos processos. Algumas oportunidades nessa vertical são gerais, tais como a monitoração para gestão de toda a cadeia logística do estoque à distribuição e automação de plantas e equipamentos, indo desde a otimização de uso de maquinário e equipamentos, manutenção preditiva para aumento de disponibilidade e prevenção de acidentes das mais diversas naturezas e gestão dos próprios colaboradores no sentido de garantir que as rotinas de saúde e segurança estão sendo executadas.

Cada indústria traz também oportunidades específicas. Pegando como exemplo dois dos maiores segmentos do Brasil, em mineração é possível implementar métodos mais precisos de monitoração de barragens, enquanto no setor de Óleo e Gás aumentam consideravelmente as possibilidades de sensoriamento de estrutura e plataformas, tornando possível a detecção de tendências de eventos antes que eles aconteçam, valor que o passado recente dessas indústrias mostra que pode ser muito significativo tanto em termos econômicos quanto ambientais.

Agronegócio: O agronegócio é um setor de enorme relevância nacional, tanto em relação ao mercado interno, representando segundo o Ministério da Agricultura (9) 21,6% do PIB do país e gerando um em cada três empregos, quanto em relação à balança comercial, representando 47,6% de participação nas exportações do Brasil (10). Entre os principais produtos estão a soja (46%), carnes (14,3%), papel e celulose (12,7%), café (5,4%) e açúcar e álcool (4,5%). Essa relevância se reflete no tamanho do potencial de ganho econômico com IoT, sendo estimado por estudos da Mckinsey apenas no Brasil entre US$ 5,5 a US$ 21,1 bilhões em 2025, dependendo do grau de adoção que essas tecnologias atingirem (11). Esse potencial com soluções de IoT vem desde ganhos de produtividade à redução de custos com insumos, por exemplo habilitando o acompanhamento das condições climáticas, do crescimento da plantação, do desempenho das máquinas agrícolas, das condições do solo e até o acompanhamento detalhado da saúde dos animais, conforme destaque no blog referência no setor chamado Confraria do Negócio (12).

Pegando como exemplo a Agricultura de Precisão que, segundo o blog de tecnologia para agricultura Aegro (13), consiste na implementação de uma gestão que considere as especificidades de cada cultura, considerando seus tempos, pragas, necessidades de solo, clima, irrigação, fertilizantes e outras variáveis, é exponencial o valor que tecnologias de IoT trazem na coleta de dados, principal insumo para as análises e decisões do dia a dia do agricultor. Dados do Aegro mostram que a Agricultura de Precisão pode trazer até 19% de redução de custos totais da produção, além de um potencial aumento de até 67% de rendimento global das lavouras. Esses ganhos se dão devido ao aumento do nível de informação e facilitação de decisões, levando à redução dos riscos da atividade agrícola e maior previsibilidade dos resultados produtivos, e esse maior acesso e enriquecimento de informações está diretamente relacionado ao aumento de tecnologias como Internet das Coisas nos diversos processos inerentes a gestão do agronegócio.

Referências

  1. BNDES – Plano Nacional de IoT – Roadmap Tecnológico Sumário Executivo
  2. Teleco – O que é a Internet das Coisas (M2M)
  3. Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) – Real Frota Circulante no Brasil é de 65,8 milhões de veículos, indica estudo
  4. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – População Rural e Urbana
  5. BNDES – Plano Nacional de IoT – Aprofundamento de Verticais – Cidades
  6. BNDES – Plano Nacional de IoT – Aprofundamento de Verticais – Saúde
  7. Sistema Indústria – A importância da indústria
  8. Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) – Indústria 4.0 Internet das Coisas
  9. Ministério da Agricultura – Agropecuária Brasileira em Números
  10. Ministério da Agricultura – Participação do agronegócio nas exportações brasileiras cresce 1,5% em março 2018
  11. BNDES – Plano Nacional de IoT – Aprofundamento de Verticais – Rural
  12. Blog Confraria do Agronegócio – Internet das Coisas
  13. Blog Aegro – O que é Agricultura de Precisão