Por Thiago Rondon, COO e CTO da Group Link One
Quando o nosso celular notifica por tudo, aprendemos a ignorar as notificações. Mas ignorar tem custo. Segundo uma matéria do Invivo, portal de ciência da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), o cérebro desvia parte da atenção para o aviso de forma automática, mesmo quando nem encostamos no aparelho. Para manter o foco, passamos a gastar mais esforço mental, e isso aparece em mais cansaço e mais erros.
A mesma matéria aponta um efeito de longo prazo: as notificações ensinam o cérebro a esperar interrupções, por meio do sistema de recompensa. Com o tempo, a nossa atenção fica condicionada a esses avisos. Temos uma capacidade de atenção finita, e a quantidade de coisas que disputam por ela só aumenta.
A mesma lógica em escala industrial
Em IoT (Internet das Coisas) acontece algo parecido, com sensores no lugar do celular. A IoT Analytics, empresa alemã de pesquisa de mercado em IoT, estima 21,1 bilhões de dispositivos IoT conectados no fim de 2025, alta de 14% sobre o ano anterior, e projeta 39 bilhões em 2030. Cada dispositivo pode gerar alertas, e a atenção de quem opera esses sistemas não cresce na mesma proporção.
A indústria de processos mede esse limite há décadas. O guia EEMUA 191, da Engineering Equipment and Materials Users Association (associação de usuários de equipamentos e materiais de engenharia), é uma referência em gestão de alarmes de plantas industriais. Ele considera muito provável que menos de um alarme a cada dez minutos seja aceitável para um operador e trata como administrável, embora possivelmente difícil, receber menos de dez alarmes em dez minutos depois de uma falha. São números pequenos, e mostram o quanto a atenção de uma pessoa é um recurso escasso.
Na saúde, o custo desse excesso já foi contabilizado. Em abril de 2013, a Joint Commission, que faz a acreditação de hospitais nos Estados Unidos, publicou o Sentinel Event Alert nº 50, um comunicado sobre segurança de alarmes em dispositivos médicos. Entre janeiro de 2009 e junho de 2012, o banco de eventos Sentinela, que reúne ocorrências inesperadas com morte ou dano físico ou psicológico grave, recebeu 98 relatos ligados a alarmes, e 80 terminaram em morte. A fadiga de alarmes, que ocorre quando os profissionais se dessensibilizam ao som, aparece entre os principais fatores, e a própria entidade avisa que o total real é provavelmente maior, porque o relato é voluntário.
O valor está em saber quando chamar alguém
Quando um aviso chega sem contexto, quem o recebe precisa investigar sozinho, e essa pessoa já tem a atenção disputada pelos outros avisos. Chamar alguém só faz sentido no momento em que a situação pede ação, e com informação suficiente para que ela saiba o que fazer.
Essa conversa fica ainda mais importante com a lógica do “AI first”, que coloca a inteligência artificial em primeiro lugar e, muitas vezes, passa a impressão de que ela resolve tudo sozinha. No fim da cadeia, ainda existe uma pessoa que toma a decisão, e ela continua sujeita aos limites de atenção que vimos anteriormente. A IA pode filtrar e priorizar, e o sistema precisa ser desenhado para respeitar quem decide.
Como tratamos isso em casa
A Group Link One é uma empresa brasileira de AIoT (Artificial Intelligence of Things) para utilities, o setor de água, energia e gás. Entregamos uma solução completa: sensores e dispositivos que fazem as leituras e uma plataforma de software e dados que usa IA para transformar essas leituras em informação para quem opera.
Na plataforma, estão disponíveis diferentes tipos de alarmes, que o cliente configura de acordo com os critérios da sua operação, definindo os limites e condições que devem gerar um aviso quando algo foge do esperado. Queremos tratar com mais critério algo que todo mundo conhece, o alerta: cada aviso abre uma ocorrência com o contexto e o histórico de quem reconheceu e de quem resolveu, para que cada aviso mereça a atenção que pede.
Se você trabalha com sistemas IoT, vale testar a sua própria operação com duas perguntas: quantos avisos cada pessoa da equipe recebe por hora e que contexto acompanha cada um deles. Se a primeira resposta for alta e a segunda for pequena, o sistema gasta a atenção da equipe sem entregar uma decisão em troca.
Thiago Rondon é COO e CTO da Group Link One e trabalha há mais de 25 anos com desenvolvimento de software, sistemas distribuídos, IoT e plataformas de dados em larga escala.
