IoT no Brasil avança, mas esbarra em falta de talentos e lacunas em segurança

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Especialistas reunidos no Fórum IoT Practices destacam que o avanço da Internet das Coisas no país contrasta com gargalos em mão de obra qualificada e ausência de marcos robustos de cibersegurança.

O número de dispositivos IoT conectados deve chegar a 39 bilhões até 2030, com um crescimento médio anual de 13,2% a partir de 2025. A inteligência artificial será um dos principais motores desse avanço, impulsionando a demanda por dados gerados pelos dispositivos, segundo a IoT Analytics. O Brasil, apesar de seu potencial criativo e industrial, corre o risco de acompanhar essa transformação de forma passiva, importando tecnologia em vez de desenvolvê-la. 

O tema foi um dos principais pontos de debate no Fórum IoT Practices 2026, realizado em 9 de abril, Dia Mundial da Internet das Coisas, em Santa Rita do Sapucaí (MG), promovido pela Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC), em parceria com o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel).

“Falar em cidade inteligente como exceção já não faz sentido. Hoje, todas as cidades têm algum nível de conectividade”, afirmou Sérgio Quiroga, Senior Advisor para os negócios da Netmore na América Latina, apoiadora do evento. “No Brasil, a discussão não é mais se existe, mas o quanto essas tecnologias estão integradas”.

Entre os principais desafios apontados está a escassez de profissionais qualificados, especialmente engenheiros com experiência em hardware. Em um mercado cada vez mais atraído pelo desenvolvimento de software, impulsionado por promessas de trabalho remoto e retorno mais rápido, a criação de produtos físicos exige experiência prática em ambiente real, da linha de produção ao contato direto com o cliente. O perfil demandado pelas empresas é cada vez mais híbrido, combinando domínio técnico com visão de negócio e entendimento das necessidades do usuário final. A avaliação foi compartilhada por representantes do Inatel, Intelbras e Midea durante o evento.

O uso conjunto de Internet das Coisas e Inteligência Artificial, conhecida como AIoT, também esteve no centro das discussões. A combinação das duas tecnologias permite transformar dados coletados por sensores em decisões automatizadas, com aplicações que vão da manutenção industrial à agricultura de precisão.

Um dos debates técnicos mais relevantes envolve o local de processamento dessa inteligência: na nuvem ou na borda (edge). Enquanto a nuvem oferece maior capacidade de processamento e análise histórica, o edge permite respostas em tempo real, mesmo em ambientes com baixa conectividade. A tendência, segundo especialistas, é a adoção de arquiteturas híbridas, que combinam as duas abordagens.

“Vemos, cada vez mais, arquiteturas computacionais surgindo já otimizadas para inteligência artificial, com NPUs integradas, DSPs e avanços no processamento de memória”, afirmou Gabriel Dias Scarponi, pesquisador do Inatel. “Há um movimento claro da indústria para viabilizar a execução desses modelos diretamente nos dispositivos, e não apenas na nuvem”.

Apesar dos avanços, a segurança segue como um dos principais pontos de atenção. Diferentemente de Estados Unidos e Europa, o Brasil ainda não possui uma legislação específica para cibersegurança em IoT, o que amplia os riscos em um ambiente já caracterizado por dispositivos com baixa capacidade de processamento e longa vida útil.

“Conectei a ABINC com a ABNT porque identifiquei uma lacuna importante: o Brasil não tinha normas técnicas para IoT”, afirmou Rogério Moreira, presidente da ABINC. “Norma é o primeiro passo, porque orienta o mercado e cria exigência para fornecedores. Em março, aprovamos a primeira norma de segurança”.

Segundo os especialistas, o desafio é estrutural. Dispositivos IoT, projetados para baixo custo e eficiência energética, frequentemente não contam com mecanismos robustos de proteção ou suporte a atualizações remotas, o que os torna vulneráveis ao longo de toda sua vida útil. O cenário se agrava com o uso crescente de inteligência artificial por agentes maliciosos. Se antes esses dispositivos eram utilizados como porta de entrada para sistemas corporativos, agora podem ser explorados diretamente para interferir em operações físicas, os chamados sistemas de tecnologia operacional (OT). Um dos exemplos citados no evento foi o controle remoto de sistemas de irrigação, com potencial de causar prejuízos significativos em curto espaço de tempo.

“Hoje, vemos soluções que adicionam camadas de cibersegurança sobre protocolos IoT já existentes, sem alterar sua base. Isso resolve no curto prazo, mas não é sustentável”, alertou Evandro Villas Boas, coordenador do Laboratório de Cybersecurity do Inatel. “Será necessário evoluir esses protocolos desde a origem, incorporando segurança já no desenho das soluções”. 

O evento reuniu especialistas, executivos e representantes da academia para discutir os avanços e desafios da Internet das Coisas no país, incluindo empresas como Intelbras, Midea, Netmore, Quectel, CERMOB, Diamond Nero, Group Link One e BWS IoT, além de pesquisadores e lideranças do Inatel e da ABINC.

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