O vazamento que se vê do espaço

O vazamento que se vê do espaço

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Por Thiago Rondon, COO e CTO da Group Link One

Uma tecnologia usada para procurar água em Marte hoje ajuda a encontrar vazamentos debaixo do asfalto. Desenvolvida pela israelense ASTERRA, a solução usa satélites e radares para identificar, no subsolo, sinais associados à presença de água e indicar pontos onde pode haver rompimentos na rede.

A abordagem já opera no Brasil. No Rio de Janeiro, a Águas do Rio identificou e reparou 1.161 vazamentos ocultos com apoio de satélite somente em 2025. Segundo a concessionária, isso evitou o desperdício de 21,8 bilhões de litros de água tratada. A operação combina imagens de satélite, telemetria, mais de 200 válvulas inteligentes e um centro que acompanha a rede 24 horas por dia.

Os números publicados confirmam: tecnologia operando em escala, com resultado concreto.

A brasileira Stattus4 segue outro caminho: sensores acústicos e inteligência artificial analisam os ruídos das tubulações para identificar possíveis vazamentos. Segundo a empresa, processos que antes poderiam levar até 180 dias passam a ser realizados em cerca de cinco. A tecnologia já foi aplicada em cidades como Curitiba, Cascavel e Araxá.

Tóquio oferece uma referência diferente. Com índices de vazamento historicamente próximos de 3%, a cidade chegou a esse patamar combinando, durante décadas, setorização, controle de pressão, substituição de tubulações e reparos rápidos.

Em abril, o Rio recebeu o Water Loss, congresso internacional dedicado à redução das perdas de água. Hoje a redução de perdas está no centro da discussão sobre segurança hídrica e adaptação climática.

Do ponto de vista da engenharia, todas essas iniciativas perseguem o mesmo objetivo: tornar visível uma infraestrutura enterrada.

A mecânica varia. Satélites identificam sinais associados à presença de água no subsolo. Sensores acústicos captam padrões de ruído. Válvulas regulam a pressão com base em dados operacionais. Juntas, essas tecnologias ajudam a localizar problemas e orientar o trabalho das equipes.

O princípio é familiar para quem opera redes de energia, sistemas distribuídos ou plataformas digitais: instrumentar, medir, comparar o comportamento esperado com o observado e agir quando surge um desvio.

No desenvolvimento de software, isso tem nome: observabilidade.

No saneamento, muitas vezes, ainda é tratado como inovação.

A pergunta óbvia

O Brasil registrou 39,53% de perdas na distribuição de água em 2024, segundo levantamento do Instituto Trata Brasil com dados do SINISA. O indicador reúne vazamentos, falhas de medição e consumos não autorizados. A meta nacional é reduzir esse percentual para 25% até 2033.

Se a tecnologia existe, funciona e já apresenta resultados no país, por que o problema continua tão grande? Porque detectar é apenas uma etapa.

Antes dela, existe a qualidade dos dados. Informações de satélite, sensores e algoritmos ganham utilidade quando podem ser cruzadas com o cadastro da rede, o histórico de medições e os registros operacionais. Se cada sistema apresenta uma versão diferente da infraestrutura, o diagnóstico perde precisão.

Depois, existe a execução. O alerta precisa virar ordem de serviço. A ordem precisa virar reparo. E o reparo precisa ser confirmado em campo.

Sem esse retorno, não há como saber se a ocorrência foi resolvida, medir o resultado da intervenção ou melhorar a qualidade dos alertas seguintes.

Tóquio chegou a índices baixos de vazamento repetindo esse ciclo, de forma consistente, durante décadas. Nenhuma tecnologia isolada explica esse resultado.

O que isso significa para o Brasil

Modernizar o saneamento começa pela base, antes de qualquer equipamento de ponta: cadastro confiável, medições rastreáveis, sistemas integrados e uma operação em que cada alerta tenha responsável, prazo e desfecho registrado.

Com essa base, satélites, sensores e algoritmos deixam de ser projetos isolados e passam a ampliar a capacidade das equipes de campo. São elas, afinal, que continuam consertando a rede.

A boa notícia é que não precisamos inventar uma tecnologia nova. As ferramentas já existem e os resultados já aparecem. O desafio agora é transformar informação em rotina operacional.

O satélite já consegue enxergar o vazamento do espaço. Falta o restante da operação enxergar também: o cadastro confiável, o alerta que vira ordem de serviço, o reparo confirmado em campo.

Thiago Rondon é COO e CTO da Group Link One e trabalha há mais de 25 anos com desenvolvimento de software, sistemas distribuídos, IoT e plataformas de dados em larga escala.

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NR7
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